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27.6.14

Melancolia

arte de Leslie Ann O'Dell

- Todo mundo preenche o coração com alguma coisa.
- Então nós somos tão vazios que precisamos nos entupir com algo?
- Não e sim. O vazio também preenche.
- Isso não faz o menor sentido.
- Claro que faz. Isso considerando que emoções fazem sentido. Você vê pessoas tentando se preencher o tempo todo. Com dinheiro, status, amor, mas principalmente coisas e pessoas. Somos acumuladores de coisas.
- Mas preencher de amor não é algo bom?
- Seria, se fosse a maioria. Mas não é. E às vezes, o amor não é para outra pessoa, mas para si, ou para odiar alguém.
- Como?
- Quando alguém ama odiar, ou simplesmente ferir.
- Ah..
Silêncio.
- E você, preenche com o quê?
- Com o Vazio.
- Como você pode preencher algo com o nada?
- Da mesma forma que os outros preenchem com coisas.
- Mas isso é tão... triste.
- De vez em quando o vazio abre espaço pra dor e tristeza. Lágrimas salgadas. Mas elas passam e o vazio volta a me consolar. É como um abraço frio, mas você já está acostumado, então é acolhedor. É algo que você conhece e entende. É algo que sempre vai estar lá. Todos os outros preenchimentos podem ir embora, e sempre deixam o vazio. Então eu prefiro me preencher só com o Vazio.
- Isso não é muito corajoso.
- É tão corajoso quanto se arriscar na felicidade. É preciso coragem para suportar a dor constante. Então eu escolho tentar suprimir tudo. Não vou mentir e dizer que contigo. Às vezes a felicidade vem. Ela e seu calor estranho. Mas quando penso em me acostumar, ela desaparece tão rápida quanto veio, deixando tudo repentinamente frio. Daí vêm as lágrimas. E quando elas se vão, o vazio.

25.1.12

Sociedade

Fotos: Caroline Pereira e Thaís Colacino


Olhos que não enxergam, 
Sem voz para argumentar (mas com muitos dedos para digitar!),
A cabeça é vazia e tudo agrega,
Só se põe a ser um reflexo, 
Sem nunca questionar.

Movimentos limitados e nulos,
Ideias perdidas no chão,
a fluidez foi-se.
À eterna espera
De algo que tudo mude.

Mas tudo acontece ao seu redor,
Sem ser notado, nem ouvido, nem apurado,
Só reproduzido, com profundo marasmo
A cadeira é confortável demais
Para que se levante.

Dance, monkeys, dance!

Obra de Sara de Belo Melles, artista formada pela PUCC. Obra exposta no MIS de Campinas em 2009

23.12.11

Contagem Regressiva

Voltando para casa após uma longa semana. O cansaço estampa da mesma forma todos os rostos no ônibus. “Finalmente chegou sexta”, “Sexta, sua linda”, “Chega logo sexta pelo amor de Deus”, são coisas comuns que vemos em redes sociais.

É estranho: vivemos para viver três dias. Não, essa frase não está errada. Deixe-me explicar: passa-se quatro dias desejando os outros três (dois, para as pessoas que não aproveitam o domingo e ficam na frente de uma TV o dia todo). E nesses três dias, faz-se tudo que não se fez nos outros: bebemos, gastamos, dormimos e assistimos a uma tela em excesso. Mas isso não significa que vivemos em excesso. Nem moderadamente, creio eu.

Vejamos: uma pessoa que trabalhe oito horas por dia (especialmente em algo que não gosta, caso de grande maioria), tem mais uma hora de almoço e fique duas horas no ônibus trabalha de fato onze horas por dia (acredito que seis horas seriam suficientes para o trabalho, mas o capitalismo...enfim). Levando em conta que essa pessoa consiga dormir seis horas (para muitos considerado algo utópico), são dezessete horas a menos no dia. Sobram, supostamente, sete horas para o resto. Mas as pessoas estão tão desgastadas mentalmente que preferem simplesmente relaxar na frente da TV ou do PC. Assim fica fácil manipular as pessoas, você as desgasta e passa o que quiser na programação para manter os carneirinhos dormentes.

E como se não bastasse não fazer nada em frente a uma tela, as outras opções se tornam insuportáveis: ler? Dá trabalho e muitos acham chato (¬¬). Ligar para um amigo? Por quê, se existe o e-mail e com ele não ouço problemas? Sair com amigos? Durante a semana? Vai fazer cair minha produtividade. Prestar atenção nas pessoas que moram comigo? Mas elas estão sempre ali, mas esse joguinho, essa notícia, esse programa...

E no fim de semana, fazemos isso? Sim. Lemos flyers de baladas, ligamos para chamar pessoas para ir conosco, saímos com amigos e prestamos atenção nas pessoas de casa para que elas não percebam algo que fizemos.

Tem algo errado aí. Nos alienamos o dia todo, esgotamos nossas capacidades durante a semana para levá-las ainda mais ao limite nos finais de semana. “Porque é divertido”. Por que não colocar mais diversão nos outros dias então? Simples. Porque vivemos para o amanhã. E somente para ele. Procrastinar é o lema.

E, veja, a sexta chegou.

6.8.11

Desapego

Eram dois cavalos. Um negro como a noite e que trazia nos olhos o brilho insano das estrelas, chamado Opala. O outro era tão branco quanto os flocos de neve que encobriam o campo em que viviam e que encontrava no vento a mais bela melodia, chamado Lira.

Conheceram-se quando eram potros, assim como vários outros. Logo caminhavam pelos mesmos caminhos, na mesma direção. Os cascos batiam no já familiar chão endurecido pelo inverno que sempre cobrira aquele mundo. Nascidos no gelo, a ele estavam acostumados.

Não que não houvesse tempos verdes e floridos. Existiam sim, mas eram escassos. Tanto que muitos acreditavam que eram momentos especiais e internos, nos quais cada um imaginava seu próprio campo de gramíneos, mas que não alterava a realidade.
 
Nesse estranho mundo os potros cresceram e continuaram próximos, mesmo quando distantes, afinal, a direção que seguiam para explorar era a mesma. Perderam contato com outros cavalos que foram para outros lugares, outros passavam pelo mesmo campo esporadicamente, e encontraram novas companhias pelo caminho. Invariavelmente, havia obstáculos, e com ajuda, todos saltavam.

Um dia, em meio às andanças, encontraram um estranho campo. Havia enormes cercas de espinhos em volta de um vasto terreno, tão altas quanto árvores antigas, mas que deixavam entrever o que havia por trás e ofuscava tudo mais: um belo campo verde, como aqueles das supostas variações de humor.


Os cavalos maravilharam-se. Compartilhar tal visão era possível, porém, não durava muito. Portanto, observaram e constataram depois de horas que não era uma miragem. Outros cavalos apareceram do outro lado da cerca. Passaram com muita dificuldade pela cerca e convidaram os dois para adentrar o local. Falaram que era só passar pelos espinhos, que o campo era sempre verde e aberto a quem quisesse desfrutar, e deixasse alguns humanos montarem esporadicamente.

Opala ficou notoriamente entusiasmado, seus olhos brilhavam ardentemente. Pela aparência selvagem dos outros, era fácil entender o porquê. Lira continuou receosa, principalmente pelos espinhos, que deixaram marcas nos outros, além de achar que algo bom não viria com um preço tão baixo. Decidiu não entrar, afirmando seus motivos para o amigo, e pediu que também não entrasse. Ele não ouviu e disse que só iria conhecer, e foi.

Começou a entrar nos espinhos lentamente, rasgando a carne, em alguns pontos superficialmente e em outros pontos um pouco mais fundo. Chegou ao outro lado, relinchou e saiu galopando. Lira observou.

A rotina se repetiu. Opala ia constantemente ao campo verde e trazia marcas bem visíveis no corpo. Aparentemente, o local proporcionava uma sensação relaxante. Algumas vezes um caubói o montava, mas eram poucas. Nunca usara rédea. Mas sentia cada vez mais vontade de voltar lá, e assim o fez.

O cavalo preto voltava cada vez com uma aparência sutilmente pior. Tanto que ele não percebia – ou não queria ver. Mas o cavalo branco via, e pedia que ele não voltasse ao campo, mas era ignorado. Opala mentia cada vez mais para ter o que havia se tornado um prazer “proibido”, e quanto mais era proibido, mais queria.

Com isso, via Lira cada vez menos. Esta passou por dificuldades, e quando encontrou o amigo, respondeu que estava mal. Porém, a resposta foi ignorada pelo outro, que começou outro assunto qualquer que o interessava. Banalidades.

O cavalo branco magoou-se, mas insistiu inutilmente. Via seu amigo se perder e emaranhar em espinhos, cada vez mais fraco e ferido, e não podia fazer nada, não podia ajudar quem não queria ser ajudado. Então, para prevenir sua dor, se afastou.

 
 
 

Algum tempo depois, voltaram a se encontrar. Lira mal reconheceu o outro. Da robustez antes ostentada, só havia a sombra de outrora: a carne colava aos ossos. Seu rosto murchara e agora tinha rédeas, seguradas com firmeza por um caubói vestido de vermelho. Mas o pior não era ser escravo de alguém. O pior era que seus olhos estavam opacos.



Ele avistou o cavalo branco e parou em frente dele. Os dois se encararam por um tempo. Opala contou que achava que podia entrar e sair quando quisesse do campo, mas que cada vez mais sentia necessidade de estar lá, e cada vez mais era dominado pelos homens. Seus olhos mostravam a dor que ele passava, a tristeza que sentia pela liberdade tomada. Ele parecia pedir ajuda. Lira não se compadeceu, dizendo que o cavalo preto havia feito uma escolha. Virou-se e foi embora.




Mais um tempo se passou. O inverno chegara e trazia ventos fortes e nevascas. Correndo pelo mundo com um companheiro, Lira acabou por ver algo no chão. Aproximando-se, encontrou um cavalo morto, coberto por um pouco de neve. Reconheceu Opala de imediato. Achou estranho, pois se encontravam um pouco longe do campo verde. Apesar dos cortes profundos e das imensas cicatrizes, da magreza excessiva e da odiosa rédea, da crina rala, era ele. Seus olhos estavam abertos e novamente brilhavam. Reencontrara a liberdade.

O companheiro de Lira perguntou se aquele era um amigo dela.
Ao que ela respondeu:
“Não”

30.7.11

Pontos 5


Sambakza - There She Is! - Part 5 - Final

29.7.11

Pontos 4


Sambakza - There She Is! - Part 4

28.7.11

Pontos 3


Sambakza - There She Is - Part 3

27.7.11

Pontos 2


Sambakza - There She is - Part 2 - Cake Dance

26.7.11

Pontos

Era uma vez um ponto laranja, que vivia toda sua liberdade dentro de seu país. Podia frequentar a universidade que escolhesse, era bem tratado onde fosse e os outros pontos e triângulos nunca lhe dirigiam uma palavra ofensiva devido à sua aparência.

Então, um dia, o ponto encontrou um triângulo. Mas não era um triângulo qualquer, de tons alaranjados ou amarelos. Era verde. Os verdes eram diferentes. A sociedade em geral os maltratava, como se fossem diferentes, inferiores. Eles, que eram livres depois de anos de escravidão. Não podiam estudar livremente sem que alguém os lembrasse das marcas do passado tão marcado que custavam a fechar. Marcas que traziam a falta de confiança e a resistência à aproximação.

Mas o ponto não viu nada disso. O ponto só via aqueles olhos, que mais pareciam dois ônix, levando-o a se perder dentro daquele interior escuro, misterioso e aconchegante. Queria conhecer mais, mas sentia que conhecia, que somente reconhecia alguém. Não vira, portanto, o verde, mas sim a alma contida naqueles olhos.

O triângulo, por sua vez, vira o ponto e seu tom alaranjado, e teve medo de ser humilhado. Mas então viu aquelas duas safiras, e perdeu-se no calmo daquela cor, encontrando a paz que tanto procurava. E reconheceu, assim como o ponto, que já conhecia aquele que estava à sua frente.

Juntos eles ficaram e lutaram – muito. Os pais do ponto não queriam a relação, não porque tinha algo contra, mas porque todos os outros tinham. Mas o ponto persistiu. O triângulo resistiu a toda humilhação com o dobro de persistência. Por fim, prevaleceram.

Então a sociedade mudou – ou assim pareceu. Muitos ainda tinham a mesma opinião, mas tinham que manter para si todo o ódio que sentiam. E o ponto e o triângulo tiveram um pequeno pontinho, que já estava para se tornar um ponto. E esse ponto encontrou outro ponto. E, assim como seus pais, o ponto não viu a forma do outro, mas sua alma, à qual sentia sintonia, com a qual se identificava.

E, novamente, havia a sociedade. Pessoas alheias à relação dos dois os mantinham separados. Pessoas que diziam pregar o amor não aceitavam o que fosse diferente da visão distorcida do que era certo. Nunca levavam em conta que outros, diferentes deles, tinham direitos. Pareciam não compreender a mensagem na qual tanto acreditavam, e disseminavam justamente o contrário, o ódio. Milhares de pontos e triângulos se mataram e foram mortos.

Os dois pontos tentaram resistir e lutar – em vão. Supostos amigos os deixaram, outros violavam seus direitos em público e as autoridades nada faziam, muitas vezes acompanhavam o deboche. Até o dia em que os dois pontos tornaram-se uma poça vermelha. Estavam juntos, enfim.

O paralelepípedo os recepcionou quando partiram do mundo, abraçando-os e assegurando-lhes que eram livres. Sozinho, olhou para seu pequeno globo com tristeza profunda. Mesmo tendo-os criado, não entendia porque, se procuravam tanto a imaterialidade a ponto de cometerem atos irracionais e dizer rejeitar o material, não conseguiam enxergar a essência, limitando-se ao mundano. Compreendeu, portanto, que nunca os poderia recepcionar, já que eles, presos à suas ilusões, nunca entenderiam o que é, de fato, amar.
 
Para acabar, postarei uma série de 5 vídeos de Sambakza, um por dia.

3.5.11

Pequenos prazeres, Amélie Poulain


A vida toda somos acostumados com a gratificação como finalidade, mesmo que a situação pela qual tenham que passar possa ferir alguém ou simplesmente ser desnecessária. Alguns procuram pessoas para algo rápido, mas prazeroso. Outras têm a necessidade suplantada constantemente por anúncios de novos objetos de desejo que logo se tornam essenciais na vida diária, onde devemos estar todos inseridos e atuantes. Mas não precisamos realmente desses prazeres impostos, podemos aproveitar aqueles pequenos e quase esquecidos no dia-a-dia.

Os pequenos prazeres, como dito no filme O Fabuloso Destino de Amélie Poulain, que revelam muito da personalidade, até da alma de cada um e, portanto, muitos escondem para si. Seja colocar as mãos dentro de um saco com grãos; sentir o aroma do café; o vento no rosto; o ronronar de um gato; o relevo da pele de alguém ou simplesmente observar as nuvens. O que importa é ter esse prazer e ter tempo para desligar-se do mundo, entregando-se ao momento e conseguindo assim relaxar. Mas o mundo não espera e logo seremos tragados de volta, mas podemos voltar um pouquinho mais felizes. 


5.4.11

Castelo em ruínas



Não sabia por que voltara lá. Era uma noite fria e com lua, com poucas estrelas visíveis. As ruínas se estendiam a seu redor, com tijolos de mentiras e interesses espalhados pelo chão, as frágeis vigas não mais suportaram o teto, que desabara com o vento, antes dócil, mas que logo se mostrou um tornado. 

E lá, no meio da sala, o que restara da vazia experiência de vida que outrora tivera: algumas fotos, alegres recordações de tempos imemoráveis. Quase todas destruídas. A única parcialmente inteira mostrava quatro rostos de trás do vidro protetor. Porém, este estava rachado sobre um dos rostos, que como tempo foi sumindo do retrato e quase não deixara vestígio.

Retirou a foto do porta-retrato, rasgando a parte afetada pelo ambiente. Dobrou a foto e guardou-a no bolso interno do paletó, próximo ao peito, relembrando que, enquanto os três rostos da foto se refugiavam do tornado, o apagado foi deliberadamente atraído até seu centro e agora lá residia.

Deixou o local sem olhar pra trás. Nem mesmo quando seu fósforo atingia o pano encharcado de combustível fez chamas brotarem, nem quando estas lambiam o que restava de sua casa e a transformavam em pó. Disse adeus ao castelo de cartas e seguiu reto pelo caminho.

2.3.11

Grito - Parte 2


Enquanto algumas pessoas gostam do silêncio, a maioria pareceu ter aderido ao grito. O mundo parece girar de acordo com quem grita mais, quem bate mais, quem intimida mais. 

 
As discussões não são ganhas em base de argumentos ou pela racionalidade, mas pelo tom de voz, que normalmente só aumenta conforme mais xingamentos saem. São discursos vazios e ecoados por muitos. É comum ver pessoas respondendo perguntas com o super argumento: "que tédio" ou qualquer xingamento que irrite o emissor e o exponha ao ridículo perante a plateia (afinal, se não tem plateia, o receptor não vai achar graça). 


É comum ver isso nos “Reality shows”, as pessoas brigam, começam a gritar e gesticular na cara das outras, ficam se encarando com um milímetro de distância até que um dos lados cede, ou pela desistência de tentar argumentar com o nada, ou parte para violência, e quem vencer a luta por consequência vence a discussão – na visão dos envolvidos. É a sobrevivência “dos mais fortes”, a volta da irracionalidade (se é que algum dia ela deixou de predominar na humanidade).

 “Ao lado do Estado Democrático de Direito, há, e sempre existirá, parcela de indivíduos que busca impor, porque lhe interessa, a lei da barbárie, a lei do mais forte. E isso o Direito não pode permitir”

14.2.11

Silêncio – parte 1


http://www.grandimpressions.com/
Silence is golden.” Duct tape is silver. De fato, o é. Mas alguns não percebem isso. Há pessoas que falam sem parar, mesmo que não haja conteúdo no que falam, simplesmente porque não suportam o silêncio, acham-no incômodo. Um exemplo são os personagens do filme Pulp Fiction, Vincent (Travolta) e Jules (Jackson). Os dois estão sempre falando assuntos sem importância e superficiais para preencher o tempo. Quando Vincent sai com Mia (Uma Thurman) e ficam sem assunto, ela comenta sobre o silêncio constrangedor e opressor. A mensagem fica mais óbvia quando Butch (Willis) conversa com uma motorista de táxi, que pergunta qual o significado do nome dele, que responde que nos EUA as palavras não significam nada.


Seria o silêncio capaz de mostrar o que nem palavras conseguem, escancarando de forma nada sutil como realmente são os relacionamentos entre as pessoas? Escondendo-se por trás de uma máscara de palavras, as pessoas podem dissimular seus verdadeiros sentimentos em relação ao outro, se é que existe algum. Mas a falta do que dizer nos torna indefesos. 



 


Pode-se considerar que é uma boa maneira de saber se há afinidade entre as pessoas se estas conseguem ficar confortáveis com a presença uma da outra, sem a necessidade das palavras. Não que elas sejam desnecessárias, afinal, é através delas que conhecemos uns ao outros e formamos a convivência. Mas quando o tempo pesa sobre ela, o silêncio é necessário para saber o que as palavras não dizem.

31.12.10

Fogo


Subitamente ele surge
Toma conta do ser
Mas não se contenta com o pouco que tem
E atinge o que estiver mais próximo
Então explode
A água vem tentar acalmar
Salgada ela cai
O fogo desfalece em lágrimas
Tudo vira cinzas
O ser reergue
Vê as carcaças queimadas
E mais uma vez se afunda na culpa

16.12.10

Palavras


Uma palavra pode mudar tudo. Em certo mangá que leio, o xXx Holic, e em um filme que gosto muito, Quem Somos Nós? , esse conceito é apresentado. O primeiro conta uma história em que uma irmã insiste em dizer para a outra como ela é ruim, desastrada, que certo trabalho não é adequado para ela, entra outras coisas. A irmã não percebe, mas é entrelaçada por essas palavras, que a limitam.

No filme, a protagonista, sendo levada por conceitos da física quântica, encontra um resultado de uma pesquisa: cientistas mentalizaram, em três copos com água, diferentes palavras. Em um, mentalizaram palavras boas, em outro não mentalizaram nada e no último, palavras ruins. 

O primeiro e o segundo sofreram modificações vistas em microscópios: a primeira água tornou-se brilhante, enquanto a terceira ficou opaca, como se estivesse podre. A segunda não sofreu alteração. Logo, a protagonista para de se auto-depreciar com palavras e começa a direcionar-se somente elogios e palavras boas.

Talvez as palavras nos afetem porque confiamos no julgamento dos outros mais do que no nosso próprio. Em uma ânsia de agradar, acreditamos que o modo com uma pessoa nos vê é como todas nos vêem. 

Logo, se alguém nos diz que somos desastrados, como foi o caso da história das irmãs, a pessoa se convence disso e age de acordo com o que o outro falou, mesmo que inconscientemente. Mesmo que a pessoa se rebele contra o que foi dito, não acredite nas palavras, elas entram na mente e se alojam ali, saindo mais tarde, em tempos de reflexões ou depressivos. Se alguém quer provar que o que lhe foi dito não é real, é porque a palavra já se instalou sobre ele.

Justamente por isso, por adentrarem a mente e conseguirem fazer com que o próprio indivíduo se sabote, palavras podem machucar mais que agressão física, e muitas vezes o fazem. 

As pessoas podem se curar de braços quebrados e até hemorragias (não que isso seja agradável, claro), mas livrar-se de uma ideia plantada a fundo (não sei por que, mas quanto mais você refuta algo, mais insistente ele se torna) é quase impossível. 

Da mesma forma, às vezes é mais fácil desculpar uma ofensa física que verbal, já que a verbal, mesmo que também impensada e dita em momento de tensão emocional, revela, mesmo que de forma distorcida, a opinião do emissor, sem as amarras que a lógica e boa convivência colocam.

23.11.10

Ninguém abraça as vacas


"Mimosa não aprova seu comportamento"

Nunca vi alguém abraçar uma vaca. Nem em foto, o que considero estranho, devido à profusão de fotos que vemos de pessoas abraçadas com animais carnívoros e perigosos (mesmo que lindos e felpudos) como tigres e leões.

Vacas são seres dóceis, ficam pastando por aí, dizem “moo”, dão leite, bezerros e carne. Felinos grandes e perigosos dão...fascínio, e carinho, se não estiverem com fome.

Ou seja, humanos preferem se arriscar com algo bonito que pode matá-los do que com seres que praticamente garantem parte de seu sustento e não tem garras ou dentes afiados. Não que vacas não possam matar, mas nas notícias que as vejo como protagonistas sempre têm algo bizarro, como “vaca aparece no teto de casa e ninguém sabe como ela parou ali” ou coisas do gênero.

Bom, é mesmo da natureza humana ir atrás de coisas que podem não ser boas pra eles em detrimento do que é claramente bom, das pessoas que os querem bem e não reclamam de ficar em segundo plano. Como agradecimento, são exploradas e jogadas fora depois. Tocante.

No fim, creio que é mais divertido para as pessoas abraçarem tigres, mesmo com risco de morte, porque isso dá adrenalina. As vacas...bom, as vacas têm seus pastos e outras vacas, não estão ameaçadas de extinção. E mesmo sendo tão prestativas e ajudando a sustentar os humanos, não recebem um mero abraço.

Nem as galinhas.

9.11.10

Matrix


Você viu o filme. Adorou os efeitos especiais, as lutas, a roupa da Trinity, a filosofia, e ideia das máquinas que controlam o mundo decadente, um mundo virtual sem leis...

E se eu te disser que a Matrix é real?

(Antes que você pule de um prédio achando que vai alcançar outro, leia o post até o fim).

Quanto tempo você passa fora de casa? Quanto tempo gasta com amigos? Quanto tempo fica longe de uma tela? Quanto tempo aguenta ficar longe de uma?

Tive que ler um texto do senhor Jean Braudillard, cara mal-humorado cujo trabalho inspirou Matrix. Ele dizia que a tela faz a pessoa imergir totalmente, tornando a vida real em mera coadjuvante, enquanto a virtual vira real.

Das situações supracitadas, em quantas você fica na frente de uma tela? Seja televisão, computador, celular, tablet? Quanto tempo você passa realmente no mundo real?

Seria a realidade tão decepcionante que precisamos fugir para uma onde as leis são obtusas, onde temos a sensação de poder fazer o que bem entendemos?

Quando seus amigos se juntam, vocês conversam ou utilizam o computador, ou qualquer outro meio tecnológico? Conseguem conversar sem mencioná-los?

“A solidão humana aumentará em proporção direta ao avanço nas formas de comunicação.” (Werner Herzog) (obrigada pela frase, Guto!)

Prefere conversar com seus amigos pela internet do que pessoalmente? Com quantas pessoas fala no mundo virtual? E no real?

Quando sua família fica reunida, vocês ficam juntos, ou cada um assiste uma tela?

Você carrega cabos USB na bolsa? Quantos aparelhos tecnológicos possui e considera essenciais?

Você realmente acredita que não está na Matrix?

Pense nisso.

E vá acampar.

4.11.10

Quatro elementos

Vivem sobre o mesmo teto, mas não juntos. Eventualmente se encontram, mas pouco falam. Comentam aleatoriedades das suas vidas, sem nunca aprofundar. De um, o mais transparente, não se sabe os gostos. Os outros guardam segredos. Conhecem-se a vida inteira, mas superficialmente. Apesar disso, se amam. Ou nisso acreditam.

Quando juntos até se divertem, comentam fatos e riem. No dia-a-dia ficam isolados coletivamente. Cada um em seu próprio mundo sob o mesmo teto. Cada um em frente a uma tela brilhante. Poucas vezes dividem a tela.

Não sabem o que acontece na vida do outro, seus planos e anseios. Vêem-se pouco, minutos ao dia. Em alguns, nem se vêem. Das coisas em comum, há alguns gostos, o teto, a distância, o nome...E se distanciam de outros com o mesmo nome, procurando faltar em eventos que os reúnam.

Desses, alguns acham que os poucos laços que os cercam são os financeiros, achando que dinheiro irá suprir o que falta. Mas o que falta?

5.10.10

Cotidiano de um casal feliz

           
                 Segunda-feira, 23h.

A mulher olhava pela sacada aberta o céu nublado, enquanto o homem desligava a televisão. Ele sentiu uma vontade súbita e a chamou. Quando ela voltou a adentrar no quarto, tomou sua mão – e cintura- e fez um giro com ela.

O olhar da mulher o indagava - dançar, agora? A que os olhos dele respondiam – por que não? Fez uma mesura como quem convida, e ela aceitou.

Revolviam pela pequena sala, imersos em si e em sua dança sem música, cujos sons vinham unicamente dos carros da avenida abaixo. Carros que os ignoravam, que prestavam atenção somente à dança de luz dos semáforos.

19.9.10

Gatos!


Eu adoro gatos. Pra quem me conhece isso é óbvio, mas explicar os motivos é a razão deste post, assim como algo em que acredito: o animal favorito revela um pouco (ou muito) da personalidade da pessoa. Portanto, eu me identifico com o comportamento dos pequenos felinos.

Gatos são quietos, só miam quando é preciso ou querem se “comunicar” de alguma forma, gostam de brincar (e de coisas brilhantes), de se esconder e assustar os outros, de correr, de dormir, de brincar com as unhas, de morder e de ganhar cafuné. São curiosos, gostam de explorar, fazem aquela cara de gato de botas (Shrek!), adoram carinho e atenção...

Também são incompreendidos: muitos os acham arrogantes, que amam a casa, a comida, e não o dono, e que seus presentes (animais por eles caçados e mortos) são nojentos. Mas não é bem assim.

O gato foge das pessoas que correm atrás dele, não por se fazer de difícil, mas porque não gosta, oras! Ter perseguidores não é bom, incomoda. Por isso, quando terminam a avaliação e resolvem que gostam de alguém, vão até a pessoa, sentam no colo, o aquecem como forma de demonstrar o afeto adquirido. Outro modo que fazem isso é trazendo presentes: os tais animais mortos. É o jeito deles de dizer que estão cuidando da casa e provendo alimento (afinal, é alimento para eles). As pessoas recompensam outras pessoas e animais com comida, logo, é natural que os animais façam o mesmo.

Não são arrogantes, só não são estúpidos (também, com o plano de dominação mundial, nem poderiam ser), não fazem “média” com todos, é preciso merecer sua confiança. Não ficam abanando o rabinho quando vêem pessoas desconhecidas, latindo querendo brincar ou pulando em cima. Ficam na deles, avaliando, se certificando de que podem confiar. Chegam de mansinho, vão farejando deixam encostar com receio, e se for carinho, aceitam, mas não por completo. É preciso conquistá-los, e se conseguir, ganha uma lealdade sem limites, desde que esta não seja traída. 

O cachorro é considerado o “melhor amigo do homem”, por vários motivos. Um deles, que eu considero ridículo e um absurdo extremo, é que pode-se tratar um cachorro mal várias vezes e ele continua leal. Não acho isso certo. Veja bem, se eu tratar meus amigos de forma inadequada, eles irão ficar chateados, e precisarei conversar e assim retomar a relação. Eles não virão até mim contentes se eu não pedir desculpas e resolvermos a situação. O mesmo acontece com gatos. Se você trair a lealdade dele, tratando-o mal (por isso que não se bate em gatos quando se tenta “discipliná-los”), ele irá tomar isso como ofensa, e nunca mais irá confiar em você. Nunca mesmo. Confiança é algo que se perde uma única vez.