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14.2.11

Silêncio – parte 1


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Silence is golden.” Duct tape is silver. De fato, o é. Mas alguns não percebem isso. Há pessoas que falam sem parar, mesmo que não haja conteúdo no que falam, simplesmente porque não suportam o silêncio, acham-no incômodo. Um exemplo são os personagens do filme Pulp Fiction, Vincent (Travolta) e Jules (Jackson). Os dois estão sempre falando assuntos sem importância e superficiais para preencher o tempo. Quando Vincent sai com Mia (Uma Thurman) e ficam sem assunto, ela comenta sobre o silêncio constrangedor e opressor. A mensagem fica mais óbvia quando Butch (Willis) conversa com uma motorista de táxi, que pergunta qual o significado do nome dele, que responde que nos EUA as palavras não significam nada.


Seria o silêncio capaz de mostrar o que nem palavras conseguem, escancarando de forma nada sutil como realmente são os relacionamentos entre as pessoas? Escondendo-se por trás de uma máscara de palavras, as pessoas podem dissimular seus verdadeiros sentimentos em relação ao outro, se é que existe algum. Mas a falta do que dizer nos torna indefesos. 



 


Pode-se considerar que é uma boa maneira de saber se há afinidade entre as pessoas se estas conseguem ficar confortáveis com a presença uma da outra, sem a necessidade das palavras. Não que elas sejam desnecessárias, afinal, é através delas que conhecemos uns ao outros e formamos a convivência. Mas quando o tempo pesa sobre ela, o silêncio é necessário para saber o que as palavras não dizem.

31.12.10

Fogo


Subitamente ele surge
Toma conta do ser
Mas não se contenta com o pouco que tem
E atinge o que estiver mais próximo
Então explode
A água vem tentar acalmar
Salgada ela cai
O fogo desfalece em lágrimas
Tudo vira cinzas
O ser reergue
Vê as carcaças queimadas
E mais uma vez se afunda na culpa

16.12.10

Palavras


Uma palavra pode mudar tudo. Em certo mangá que leio, o xXx Holic, e em um filme que gosto muito, Quem Somos Nós? , esse conceito é apresentado. O primeiro conta uma história em que uma irmã insiste em dizer para a outra como ela é ruim, desastrada, que certo trabalho não é adequado para ela, entra outras coisas. A irmã não percebe, mas é entrelaçada por essas palavras, que a limitam.

No filme, a protagonista, sendo levada por conceitos da física quântica, encontra um resultado de uma pesquisa: cientistas mentalizaram, em três copos com água, diferentes palavras. Em um, mentalizaram palavras boas, em outro não mentalizaram nada e no último, palavras ruins. 

O primeiro e o segundo sofreram modificações vistas em microscópios: a primeira água tornou-se brilhante, enquanto a terceira ficou opaca, como se estivesse podre. A segunda não sofreu alteração. Logo, a protagonista para de se auto-depreciar com palavras e começa a direcionar-se somente elogios e palavras boas.

Talvez as palavras nos afetem porque confiamos no julgamento dos outros mais do que no nosso próprio. Em uma ânsia de agradar, acreditamos que o modo com uma pessoa nos vê é como todas nos vêem. 

Logo, se alguém nos diz que somos desastrados, como foi o caso da história das irmãs, a pessoa se convence disso e age de acordo com o que o outro falou, mesmo que inconscientemente. Mesmo que a pessoa se rebele contra o que foi dito, não acredite nas palavras, elas entram na mente e se alojam ali, saindo mais tarde, em tempos de reflexões ou depressivos. Se alguém quer provar que o que lhe foi dito não é real, é porque a palavra já se instalou sobre ele.

Justamente por isso, por adentrarem a mente e conseguirem fazer com que o próprio indivíduo se sabote, palavras podem machucar mais que agressão física, e muitas vezes o fazem. 

As pessoas podem se curar de braços quebrados e até hemorragias (não que isso seja agradável, claro), mas livrar-se de uma ideia plantada a fundo (não sei por que, mas quanto mais você refuta algo, mais insistente ele se torna) é quase impossível. 

Da mesma forma, às vezes é mais fácil desculpar uma ofensa física que verbal, já que a verbal, mesmo que também impensada e dita em momento de tensão emocional, revela, mesmo que de forma distorcida, a opinião do emissor, sem as amarras que a lógica e boa convivência colocam.

23.11.10

Ninguém abraça as vacas


"Mimosa não aprova seu comportamento"

Nunca vi alguém abraçar uma vaca. Nem em foto, o que considero estranho, devido à profusão de fotos que vemos de pessoas abraçadas com animais carnívoros e perigosos (mesmo que lindos e felpudos) como tigres e leões.

Vacas são seres dóceis, ficam pastando por aí, dizem “moo”, dão leite, bezerros e carne. Felinos grandes e perigosos dão...fascínio, e carinho, se não estiverem com fome.

Ou seja, humanos preferem se arriscar com algo bonito que pode matá-los do que com seres que praticamente garantem parte de seu sustento e não tem garras ou dentes afiados. Não que vacas não possam matar, mas nas notícias que as vejo como protagonistas sempre têm algo bizarro, como “vaca aparece no teto de casa e ninguém sabe como ela parou ali” ou coisas do gênero.

Bom, é mesmo da natureza humana ir atrás de coisas que podem não ser boas pra eles em detrimento do que é claramente bom, das pessoas que os querem bem e não reclamam de ficar em segundo plano. Como agradecimento, são exploradas e jogadas fora depois. Tocante.

No fim, creio que é mais divertido para as pessoas abraçarem tigres, mesmo com risco de morte, porque isso dá adrenalina. As vacas...bom, as vacas têm seus pastos e outras vacas, não estão ameaçadas de extinção. E mesmo sendo tão prestativas e ajudando a sustentar os humanos, não recebem um mero abraço.

Nem as galinhas.

9.11.10

Matrix


Você viu o filme. Adorou os efeitos especiais, as lutas, a roupa da Trinity, a filosofia, e ideia das máquinas que controlam o mundo decadente, um mundo virtual sem leis...

E se eu te disser que a Matrix é real?

(Antes que você pule de um prédio achando que vai alcançar outro, leia o post até o fim).

Quanto tempo você passa fora de casa? Quanto tempo gasta com amigos? Quanto tempo fica longe de uma tela? Quanto tempo aguenta ficar longe de uma?

Tive que ler um texto do senhor Jean Braudillard, cara mal-humorado cujo trabalho inspirou Matrix. Ele dizia que a tela faz a pessoa imergir totalmente, tornando a vida real em mera coadjuvante, enquanto a virtual vira real.

Das situações supracitadas, em quantas você fica na frente de uma tela? Seja televisão, computador, celular, tablet? Quanto tempo você passa realmente no mundo real?

Seria a realidade tão decepcionante que precisamos fugir para uma onde as leis são obtusas, onde temos a sensação de poder fazer o que bem entendemos?

Quando seus amigos se juntam, vocês conversam ou utilizam o computador, ou qualquer outro meio tecnológico? Conseguem conversar sem mencioná-los?

“A solidão humana aumentará em proporção direta ao avanço nas formas de comunicação.” (Werner Herzog) (obrigada pela frase, Guto!)

Prefere conversar com seus amigos pela internet do que pessoalmente? Com quantas pessoas fala no mundo virtual? E no real?

Quando sua família fica reunida, vocês ficam juntos, ou cada um assiste uma tela?

Você carrega cabos USB na bolsa? Quantos aparelhos tecnológicos possui e considera essenciais?

Você realmente acredita que não está na Matrix?

Pense nisso.

E vá acampar.

4.11.10

Quatro elementos

Vivem sobre o mesmo teto, mas não juntos. Eventualmente se encontram, mas pouco falam. Comentam aleatoriedades das suas vidas, sem nunca aprofundar. De um, o mais transparente, não se sabe os gostos. Os outros guardam segredos. Conhecem-se a vida inteira, mas superficialmente. Apesar disso, se amam. Ou nisso acreditam.

Quando juntos até se divertem, comentam fatos e riem. No dia-a-dia ficam isolados coletivamente. Cada um em seu próprio mundo sob o mesmo teto. Cada um em frente a uma tela brilhante. Poucas vezes dividem a tela.

Não sabem o que acontece na vida do outro, seus planos e anseios. Vêem-se pouco, minutos ao dia. Em alguns, nem se vêem. Das coisas em comum, há alguns gostos, o teto, a distância, o nome...E se distanciam de outros com o mesmo nome, procurando faltar em eventos que os reúnam.

Desses, alguns acham que os poucos laços que os cercam são os financeiros, achando que dinheiro irá suprir o que falta. Mas o que falta?

12.10.10

O tigre e a criança


Em um reino, as pessoas deviam escolher um animal para conviver. E entre uma família de guerreiros, havia uma criança, que por um acaso, conheceu um tigre, e por ele se afeiçoou. Seus pais eram contra, acreditavam que o tigre faria mal à criança, que poderia machucá-la e sugeriram que ela escolhesse um cavalo. Mas a criança não queria alguém que a carregasse, mas que a acompanhasse.


O tigre e a criança se entendiam muito bem, passavam horas conversando, brincando, correndo atrás de bolas, caçando borboletas, observando as estrelas. A criança adorava abraçar o tigre, ele a mantinha quente e passava todo o seu afeto num simples gesto, e a criança retribuía com cafuné, que fazia o tigre ronronar como um gatinho.

O tigre lhe deu um presente: era um pequeno tigrinho de pelúcia, para que a criança pudesse lembrar-se dele. E a criança dormia toda noite com o brinquedo, por lembrar de seu companheiro, e isso a tornava a criança que era, mesmo que tentasse agir de outra forma.

Mas nem tudo era perfeito. A criança estava em fase de crescimento, e por vezes ficava irritada sem motivo algum. E queria ficar sozinha. Mas o tigre não queria deixá-la, queria ajudá-la a superar tal fase. E a criança utilizava qualquer meio, chegando até a machucar o tigre. Quando os ataques passavam, ela ia lhe pedir perdão, e ele aceitava.

Um dia a criança teve um desses ataques e mais uma vez o tigre a perdoou. Mas ela sentia que ele estava distante, como que se afastasse. Teria ele finalmente se enchido daqueles ataques e ensaiava sua retirada?

A criança não queria se afastar. Apesar de odiar admitir seus sentimentos, sentia que quando não via o tigre, uma angústia se abatia sobre ela. De vez em quando, sentia a vontade desesperadora de abraçá-lo, mas tinha que se contentar com o bichinho de pelúcia, devido à distância. Ao sentir o que achava ser uma despedida, sentia como se todo o mundo se apoiasse sobre seu peito, fazendo uma pressão infinita que se traduzia em lágrimas, escondidas em seu travesseiro.

E por mais que não entendesse, ela finalmente admitiu o que sentia por ele.

5.10.10

Cotidiano de um casal feliz

           
                 Segunda-feira, 23h.

A mulher olhava pela sacada aberta o céu nublado, enquanto o homem desligava a televisão. Ele sentiu uma vontade súbita e a chamou. Quando ela voltou a adentrar no quarto, tomou sua mão – e cintura- e fez um giro com ela.

O olhar da mulher o indagava - dançar, agora? A que os olhos dele respondiam – por que não? Fez uma mesura como quem convida, e ela aceitou.

Revolviam pela pequena sala, imersos em si e em sua dança sem música, cujos sons vinham unicamente dos carros da avenida abaixo. Carros que os ignoravam, que prestavam atenção somente à dança de luz dos semáforos.