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Portifólio

Amostras de meus trabalhos profissionais

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16.3.12

A bailarina



A garota abriu ansiosa a caixinha rosa e colocou cuidadosamente a pequena bailarina em pé. Deu corda e ela graciosamente girou, dançando e refletindo nos espelhos com milhares de cópias dela. A bailarina estava feliz, dançar era a paixão dela, e a garota estava extasiada. 

A bailarina dançava várias vezes por dia, e a garota trazia várias amigas para vê-la e muitas vezes tentavam imitá-la. A rotina da dança se repetiu por muito tempo e eventualmente a bailarina não queria mais dançar. Não daquele jeito, repetitivo. Queria experimentar novos movimentos, novos ritmos, novos palcos.


Vendo que a bailarina não dançava, a garota se irritou. Bateu na caixa, mas ela não se moveu. Então a garota começou a chorar. Era um som horrível. A bailarina nunca o tinha ouvido antes. Quando dançava, as garotas soltavam suspiros ou riam de alegria por sua arte.

Algo cresceu dentro da bailarina. Era um peso terrível sobre seu coração, algo que ela nunca havia experimentado. Doía demais, ouvir aquele som, ver pequenas gotas escorrendo pelo rosto da garota. Então, lentamente, a bailarina voltou a dançar, mesmo contra sua vontade. Ao perceber, a garota começou a silenciar-se e esboçar um belo sorriso.

E por tempos isso continuou: para não deixá-la triste, a bailarina continuava a dançar. A bailarina, muitas vezes cansada, caía, e sempre era levantada pela garota. Até que um dia ela ficou caída. Suas pernas iam perdendo a cor e ela tornou-se quebradiça, mas não foi levantada. Por vezes via a garota, agora mais velha, se pintando e entretendo-se com outras coisas.

Uma fina camada de pó começou a cobrir os espelhos da caixa. A bailarina não mais se reconhecia, desbotada, sem vida e parada. E um dia um acidente ocorreu: a caixa foi ao chão, com a bailarina presa embaixo. A perna dela foi quebrada, e ela não poderia mais dançar. Então a garota a guardou de qualquer forma na caixa e colocou no armário. Relegada ao escuro, só restava à bailarina os antigos sonhos não realizados.

1.3.12

Autora


A autora do blog é uma pessoa esquisita que já teve quase certeza que tinha que ser de outro planeta ou da imaginação de alguém. Quando pensou que a imaginação de alguém produziria mais ação, conformou-se que essa deve ser a realidade.

Thaís Colacino da Rocha nasceu em 01/11/1988 (façam as contas para a idade!). Como nasceu no mesmo dia que o avô, ele escolheu o nome dela, e resolveu que seria Thaís, como na música de Zamfir, “Meditation from Thais”, uma das favoritas dele. 

Aos 10 anos Thaís descobriu um livro que mudaria sua vida: Harry Potter. Foi uma experiência interessante: ela leu a primeira página de um livro de uma amiga e ao chegar ao fim dela percebeu que precisava comprar aquele livro. O que foi bom, porque estavam pra começar as gravações do primeiro filme e isso despertou novamente o interesse dela por leitura. Lia quando criança, mas não romances, nem tão longos quanto HP, o que depois motivou uma ânsia por livros que infelizmente entupiu sua estante. Atualmente, ela pede uma nova no aniversário, no natal, na páscoa, para Deus, para os deuses, para o papai Noel...

Talvez pela paixão por leitura e por dizerem que ela poderia ser o que quisesse, ela quis ser escritora. E como disseram que isso ela não poderia ser ou morreria de fome, ela resolveu tentar Jornalismo, que tem muito em comum com o que ela quer e ganha quase tão pouco quanto. Assim, ela já vai se acostumando e no meio do caminho pode conseguir um caminho para salvação através do jejum. Fingers crossed!

É habituada ao sarcasmo, adquirido ao longo de anos assistindo Friends e adorando Chandler (mesmo quando não entendia várias piadas, afinal, tinha nove anos!). Passava a infância vendo a época de ouro dos animes (Manchete! Cavaleiros do Zodíaco, Sailor Moon, mas, curiosamente, nunca viu Dragon Ball), que continua invariavelmente até hoje, quando encontra algum interessante. Gosta de mangás também. Já freqüentou muitos eventos de animes e adora cosplay e, principalmente, a cultura japonesa.

Joga RPG aos fins de semana (mas não é assassina). Acredita que isso a faz abstrair, usar a imaginação e leva a conhecer muita gente bacana. Tem uma certa paixão por música e cinema, não conseguindo passar um dia sem ouvir música (nem que o rádio seja seu cérebro) e vai ao cinema constantemente, principalmente se o diretor for Nolan ou Aronosfky.

O projeto de TCC, uma revista sobre cultura pop chamada Quentin, em homenagem ao diretor, transpôs-se para o meio cibernético, virando um blog (por enquanto) atualizado diariamente.

Se quiser entrar em contato com a autora, você pode mandar um email para thaiscolacino@gmail.com, ou comentar aqui no blog, ou no da revista Quentin, ou adicionar ela como amiga no Facebook, falando que é um leitor e que esse blog é maravilhoso e ela escreve muitíssimo bem. Se o convite não tiver essas exatas palavras, ela pode não aceitá-lo.

Cor favorita: Roxo

Gosta: Vento; perfume; cheiro de livros novos; ficar em filas de oito horas pra assistir Harry Potter; fotografar; escrever; árvores; gatos; cabelos ruivos e olhos cor de mel (se ver uma combinação disso, irá correr atrás da pessoa até conseguir uma foto ou ser presa).

Não Gosta: cigarro; cor amarela; maracujá; filmes dublados; Nicolas Cage; preconceito; intolerância; pessoas que não usam fone de ouvido ou desodorante; pessoas que falam gritando.

Filmes Favoritos: Orgulho e Preconceito e Origem.

Séries: Friends, Community, How I met your mother, Dexter, Game of Thrones, Supernatural, Sherlock.

Anime/Manga: Kuroshitsuji; Clamp (tudo); Sailor Moon; Cavaleiros do Zodíaco; Fullmetal Alchemist; Monster.

Música: bandas demais para colocar aqui. Rock, clássica, pop, rap, soul...Para citar exemplos: The Rasmus, Vivaldi, Lady Gaga Jay Z, Adele...

25.1.12

Sociedade

Fotos: Caroline Pereira e Thaís Colacino


Olhos que não enxergam, 
Sem voz para argumentar (mas com muitos dedos para digitar!),
A cabeça é vazia e tudo agrega,
Só se põe a ser um reflexo, 
Sem nunca questionar.

Movimentos limitados e nulos,
Ideias perdidas no chão,
a fluidez foi-se.
À eterna espera
De algo que tudo mude.

Mas tudo acontece ao seu redor,
Sem ser notado, nem ouvido, nem apurado,
Só reproduzido, com profundo marasmo
A cadeira é confortável demais
Para que se levante.

Dance, monkeys, dance!

Obra de Sara de Belo Melles, artista formada pela PUCC. Obra exposta no MIS de Campinas em 2009

23.12.11

Contagem Regressiva

Voltando para casa após uma longa semana. O cansaço estampa da mesma forma todos os rostos no ônibus. “Finalmente chegou sexta”, “Sexta, sua linda”, “Chega logo sexta pelo amor de Deus”, são coisas comuns que vemos em redes sociais.

É estranho: vivemos para viver três dias. Não, essa frase não está errada. Deixe-me explicar: passa-se quatro dias desejando os outros três (dois, para as pessoas que não aproveitam o domingo e ficam na frente de uma TV o dia todo). E nesses três dias, faz-se tudo que não se fez nos outros: bebemos, gastamos, dormimos e assistimos a uma tela em excesso. Mas isso não significa que vivemos em excesso. Nem moderadamente, creio eu.

Vejamos: uma pessoa que trabalhe oito horas por dia (especialmente em algo que não gosta, caso de grande maioria), tem mais uma hora de almoço e fique duas horas no ônibus trabalha de fato onze horas por dia (acredito que seis horas seriam suficientes para o trabalho, mas o capitalismo...enfim). Levando em conta que essa pessoa consiga dormir seis horas (para muitos considerado algo utópico), são dezessete horas a menos no dia. Sobram, supostamente, sete horas para o resto. Mas as pessoas estão tão desgastadas mentalmente que preferem simplesmente relaxar na frente da TV ou do PC. Assim fica fácil manipular as pessoas, você as desgasta e passa o que quiser na programação para manter os carneirinhos dormentes.

E como se não bastasse não fazer nada em frente a uma tela, as outras opções se tornam insuportáveis: ler? Dá trabalho e muitos acham chato (¬¬). Ligar para um amigo? Por quê, se existe o e-mail e com ele não ouço problemas? Sair com amigos? Durante a semana? Vai fazer cair minha produtividade. Prestar atenção nas pessoas que moram comigo? Mas elas estão sempre ali, mas esse joguinho, essa notícia, esse programa...

E no fim de semana, fazemos isso? Sim. Lemos flyers de baladas, ligamos para chamar pessoas para ir conosco, saímos com amigos e prestamos atenção nas pessoas de casa para que elas não percebam algo que fizemos.

Tem algo errado aí. Nos alienamos o dia todo, esgotamos nossas capacidades durante a semana para levá-las ainda mais ao limite nos finais de semana. “Porque é divertido”. Por que não colocar mais diversão nos outros dias então? Simples. Porque vivemos para o amanhã. E somente para ele. Procrastinar é o lema.

E, veja, a sexta chegou.

22.12.11

Pedaços



Ele sabia que aquilo era errado, mas não pensou em voltar atrás. A casa na colina parecia abandonada e seria difícil alguém lá habitar. Mas, como manda o clichê, ela era, e por um ser fascinante.

Adentrou por uma fenda entre o chão e o portão, esgueirando-se para uma janela que ele deixara aberta na noite anterior quando a casa recepcionara uma festa, como sempre. Todos eram convidados, como sempre. E o anfitrião ficava um pouco apagado, como sempre.

A casa estava escura e vazia. Ou assim ele esperava. Silencioso, entrou pela janela no corredor. Sabia que não haveria perigo, pois apesar de morar com outros na casa, elas nunca estavam lá. ELE sempre falava isso. Mas ELE falava muita coisa.

Apesar de sempre ficar no canto em suas próprias festas, falava com todos e invariavelmente chamava atenção para seus comentários desconexos e facetas exageradas.

Subiu as escadas, sabia que o que queria estava no sótão. No caminho, encontrou um artefato curioso: uma ampulheta. Era curioso porque ELE dizia ter medo daquele objeto simplesmente porque representava a passagem do tempo e, portanto, a morte. Apesar disso, não tinha nada contra relógios.

Na ponta dos pés, subiu a escada, lembrando que ELE uma vez dissera que tinha algo no sótão que era único e, por isso mesmo, não podia mostrar a ninguém ou seria cobiçado. Chamava-o de “segredo”. A curiosidade o levou até ali. Achava que a esquisitice dELE revolveria em torno do tal “algo”. 

O anfitrião sempre fora esquisito: tinha manias estranhas: usava coisas não-usuais como acessórios (um telefone como fone de ouvido); dizia ser incapaz de sentir cheiros, mas uma vez deixou escapar que amava o cheiro de cookies; utilizava de drama para as coisas mais pequenas (fingia um medo colossal de joaninhas). Acreditava que a vida era uma fantasia sem fim, ora agindo como se pertencesse à terra média, ora à máfia. Todos aspectos devidamente copiados ou referentes à alguém ou à alguma coisa.   

O silêncio em volta tornava as coisas um pouco assustadoras. Normalmente, quando havia festas, o barulho de conversas e música era intenso, principalmente quando havia jogos para o entretenimento. Agora o mínimo esforço para se locomover era graciosamente abafado pelo carpete, mas ainda assim fazia a madeira ranger. Mas nenhum som podia abafar o vazio daquela casa. 

Chegou finalmente à porta do sótão a testou. Não estava trancada, por isso adentrou, ainda cuidadoso. A sala estava escura e empoeirada, com alguns móveis cobertos por panos brancos e gastos. A lua banhava a sala, sendo sua única fonte de luz, e era refletida por algo grande e semi-coberto, em um espaço mais aberto, perto da janela. Reparou que o chão naquele espaço não era tão sujo.

Aproximou-se e prendeu o fôlego enquanto retirava o tecido que cobria o objeto, rápido mas cauteloso. Era um espelho de vidro escuro, com moldura dourada e ornamentado com arabescos prateados. Era maior que um homem, e belíssimo. Havia pequenas inscrições no vidro, mas não conseguia ler. 

Chegou mais perto e estacou. Ouviu um barulho ali, alto o suficiente para não ser um rato nem fruto de sua imaginação. Mas não podia ter certeza, nem podia desistir agora. Virou-se afobado para ler, mas ainda não compreendia. Ouviu o ranger da madeira perto de si. Eram passos, sem dúvida, mas não pareciam tão humanos. Não se atreveu a olhar para trás. Leu finalmente a inscrição:

Você – Pedaços -- Eu

Confuso, reparou em uma sombra no canto do espelho que não estava lá. Com a barriga dando voltas, virou-se assustado, pronto para se defender. Mas não havia uma pessoa lá. Só um manequim, cheio de conhecidos retalhos. Era ELE.


18.11.11

Conexão


Ela chegou à casa na qual trabalhava como empregada e logo notou algo estranho no chão: um pó amadeirado. Provavelmente eram cupins. Pensou que deveria avisar o patrão, mas nunca o encontrava. Quando chegava entrava com a chave que possuía, pois ele já havia saído. Ia embora antes dele voltar da empresa. Poucas vezes o via, e achava que ele deveria ter algum problema, sempre distraído com algum aparelho eletrônico.

Talvez fora isso que acabara com o casamento do patrão. A antiga esposa era do lar, uma criatura muito simpática e atenciosa, por quem a empregada se afeiçoara. Eram constantes as reclamações da esposa de que o marido não lhe dava atenção, que era ausente mesmo quando presente. Pouco mais de seis meses, o casal se separou. 

A empregada sentiu muito pela separação, também por seus próprios motivos: a casa vazia a incomodava, não tinha com quem conversar. Imaginava que era por isso que o patrão vivia com algum aparelho em mão, devia estar desesperado por alguma conexão. Deixou um bilhete avisando dos cupins.

Poucos dias depois, a empregada, enquanto limpava a cozinha, deparou-se com uma pequena casca de madeira na cadeira. Olhou para cima e para os lados, mas só encontrou mármore. Não havia plantas na casa.

Alguns dias depois, acabou por encontrar o patrão quando chegava para trabalhar. O olhar dele demonstrava espanto e ansiedade. Ela disse “bom dia”, ao que ele respondeu com um lento aceno de cabeça, e ela ouviu um galho se mexendo. Ele saiu rapidamente enquanto tossia forte. Na sala ela encontrou um bilhete: o patrão pedia que ela não entrasse mais no quarto dele e que a porta permaneceria trancada. Não havia explicação do porquê. 

A empregada não teve tempo para ficar curiosa a respeito do teor do bilhete, pois enquanto o manuseava, um pequeno pedaço de madeira perfurou-lhe o dedo e ela logo procurou um curativo, esquecendo as esquisitices do patrão. 

Quando chegou ao banheiro, deparou-se com uma cena inusitada: a pia estava coberta de folhas de árvore. Pequenas folhas, muito verdes e com manchas avermelhadas em cima. A empregada pegou uma para examinar. Levou uma folha para perto dos olhos, cheirando e observando bem. Quando percebeu do que se tratava, solto um grito. Era sangue.

O desespero a tomou. Há pouco tempo havia visto na televisão uma reportagem sobre assassinos seriais, e a reclusão de seu patrão a assustava mais do que nunca. Enquanto ia para a sala, deparou com a porta do quarto do patrão fechada. A curiosidade e o medo tomaram-na e ela tentou adentrar o quarto, sem sucesso. Mas ouviu um barulho lá dentro. Um barulho inumano. 

Passando mal, quis sair rapidamente da casa do patrão. Não sabia o que estava acontecendo, mas não era algo bom. Escreveu um bilhete qualquer pedindo demissão e lançou-se porta afora. No corredor, encontrou outra daquelas curiosas folhas no chão, exatamente onde o patrão havia estado antes de partir. Não olhou para trás enquanto correu.

Dias depois ainda não havia recebido o pagamento, mas também não tinha coragem de cobrar o ex-patrão. Tentara o contato telefônico, mas ele não atendia. E-mails não eram respondidos. Ela achou estranho, já que ele não desgrudava de uma tela e trabalhava com informática. Uma das amigas da empregada a convenceu a ir até a casa do ex-patrão acompanhada. As duas chegaram e bateram várias vezes, sem resposta. Chamaram o síndico do prédio para informações e ele afirmou que não via o homem há alguns dias e, portanto, iria abrir a porta e ver o que acontecia. 

Ao abrir o apartamento, nada notaram de estranho: estava tudo no lugar, não havia sinais de que alguém passara por ali. As cortinas da sala estavam fechadas, deixando o lugar escuro. Havia somente uma luz azulada, vinda do vão da porta do quarto do homem. Silenciosamente, os três chegaram perto e abriram lentamente a porta e logo se arrependeram. O quarto fedia a madeira e morte. 

Lá dentro, encontraram um enorme tronco que possuía ainda algum formato humano, mas seus galhos e ramificações retorcidos e esticados tomavam todo o lugar. De toda a madeira pingava sangue. Havia água e folhas espalhadas pelo chão, muitas pendiam do que antes deveria ser uma cabeça. Os galhos que antes eram mãos e olhos juntavam-se ao monitor de computador, atravessando a tela que, mesmo quebrada, ainda emitia luz. A empregada chegou perto do que fora o rosto de seu patrão e viu um pequeno filete de água escorrendo pelo que deveriam ter sido os olhos dele. Não sabia se ele chorara pelo que se transformara ou por finalmente ter se conectado a algo. 



28.9.11

Mundo das trevas

Era seu primeiro baile e parecia que esperara por ele por uma eternidade. Finalmente seria apresentada à sociedade. Seria reconhecida e poderia então adentrar no glamoroso mundo que a esperava, com festas, fofocas, alta costura, contatos, brilho e tudo mais que o dinheiro poderia oferecer. Isso sem contar as novas companhias. 

Escolhera cuidadosamente sua vestimenta: um vestido de seda, saia rodada, laços e brilhos, tudo em tons dourados. Nos braços levava ornamentos do mesmo tom, e nos cabelos apenas pontos de luz. As luvas de renda conferiam um toque pueril ao conjunto. Mas a máscara escolhida era tipicamente de Veneza, bela e comum.

No caminho para a mansão onde seria o baile, pensou em todo o caminho que a levara até ali: estudara infinitas horas, trabalhara as restantes e dormira apenas quando desmaiava de cansaço. Fizera muitos favores, conseguira coisas impossíveis, foi ludibriada e enganada diversas vezes, derrubaram-na incontáveis outras, mas sempre mantivera a meta de entrar naquela sociedade, e finalmente conseguira.

A mansão era uma construção imponente: três andares de pouco mármore e muito vidro, tanto que levava o nome de “Castelo de Cristal”. As luzes não permitiam que os convidados fossem vistos de fora do local, o que permitia verem sem serem vistos. Um leve arrepio passou pela espinha da garota quando saiu para o ar da noite e contemplava o castelo, mas creditou tal sensação ao vento.

Tudo se passava como em um sonho: dois empregados abriram as portas duplas, e o esplendoroso e iluminado salão apareceu para seus olhos. Casais dançavam, vinho era servido e muitos riam alegremente. 

A anfitriã encontrou-a e foi cumprimentá-la. Apresentou-a diversas pessoas; relacionou-a com diversos contatos; ofereceu-lhe deliciosos vinhos. Mas era com os perfumes caros e o ar de poder com os quais se inebriava. 

Foi levada até a janela pela anfitriã, que mostrou quão grande era o terreno, mas também fazia troça dos que trabalhavam para ela. Dissera serem pequenos como formigas, trabalhadores honestos. Impregnara todo desprezo que era possível nas últimas palavras, causando embaraço na garota. A mulher continuou, sem notar os sentimentos da convidada, rindo enquanto contava histórias que eram para ela engraçadas e patéticas, mas só demonstravam a boa índole dos trabalhadores.

Então o relógio ressoou, era hora de tirarem as máscaras para a dança da meia-noite. A anfitriã virou-se e foi a primeira a mostrar seu rosto, mas a garota continuava a olhar para fora, a observar e a pensar no que a mulher dissera. Ouviu a chamarem e pareceu acordar de um transe. A mulher a olhava, sorridente. O rosto dela era de uma beleza irretocável que acabou por fascinar ainda mais a garota. Dirigiu um último olhar à janela, mas algo chamou sua atenção. Parecia um efeito de sombra, mas quando prestou atenção, não pode evitar que calafrios percorressem o corpo. Tentou gritar, mas o som morreu na garganta quando o medo tomou conta.

O reflexo da anfitriã estava... diferente. O rosto, tão luminoso, era de um cinza doentio no reflexo. Era extremamente enrugado e seco, e em alguns lugares até despedaçava, revelando uma gosma de tom esverdeado que grudava os pedaços do rosto. Havia saliências por todos os lados. Abaixo dos olhos, marcas fundas e arroxeadas rodeavam os olhos eram leitosos, pequenos e tão malignos que ela teve que desviar o olhar. A cabeça não tinha cabelos, mas sim poucos e ralos tufos, e era coberta de manchas amareladas. Seu corpo tinha profundas marcas de ferimentos, expondo a gosma seca por debaixo da carne. Havia também marcas de dedos, mãos e arranhões, como se tivessem pressionado por tanto tempo, ou a ele se tivessem agarrado. Não sabia dizer se fora por prazer ou se era um sinal de luta para escapar dela. Mas o pior eram os dentes. A boca antes carnuda da mulher não passava de uma linha sem nenhum atrativo, que deixava a mostra os dentes pontiagudos como de um tubarão. Voltou a forçar o olhar para os olhos da mulher, e sentiu-se como sua próxima presa.

Desviou o olhar daquele reflexo, mas ao olhar o rosto da mulher, não conseguia mais não ver o que vira. Olhava-a com a boca escancarada de pavor, a cor fugia-lhe do rosto e seu corpo tremia. A mulher esboçou preocupação e tentou tocá-la, mas tudo o que viu foi a bocarra abrir um sorriso malévolo e garras tentando roçá-la. Virou-se para fugir, procurando a porta, mas enquanto perscrutava o salão via, a cada máscara que caía, um rosto pior que o anterior, e todos pareciam olhá-la, pareciam querer devorá-la.

Foi então que sentiu o maior medo. Todos os convidados, sem exceção, eram monstruosos. E ela era convidada. Voltou a virar para o reflexo e tirou sua máscara. Havia, sim, um pequeno racho em sua feição, mas não era nem de longe a forma distorcida dos outros. Teria a alma começado a rachar? Ou seria outra coisa? Talvez houvesse salvação. Talvez.

A dança recomeçou e ela se impulsionou para sair dali. Os demônios dançavam e o baile macabro tomava forma. Agora que enxergava, via que os criados eram brancos e transparentes como fantasmas, quase imperceptíveis. O vinho tornara-se tão espesso quanto sangue, se é que não o era realmente. Enquanto via todo o conto de fadas transformar-se em uma medonha realidade e se dirigia às portas, percebeu que seus passos eram mais lentos. O vestido, de dourado tão resplendoroso, lhe pesava como se todo o ouro a impedisse de andar. Seus adornos pareciam grilhões que tilintavam junto à música lúgubre, cantada por gritos enraivecidos e de dor. Os demônios riam-se dela, do esforço que fazia para tentar sair, quase rastejando no chão. O vestido a queimava, e não tinha forças para tirá-lo.

Então viu seu patético reflexo no espelho. O ouro de seu vestido parecia fazer um incorpóreo caminho para as mãos daqueles que a haviam tocado, e eles seguravam bem.  Pequenas manchas roxo-acinzentadas surgiram nas partes do corpo que tiveram contato com os convidados e dobravam de tamanho a cada piscar de olhos. Sentia um frio profundo no corpo e começou a tremer e logo constatou que seu sangue estava esvaindo, sendo substituído por algum líquido gelado. A pele começou a rachar, e ela tentava desesperadamente chegar à porta. 

Mas alguém a puxou com força e a máscara caiu do rosto e rolou para o chão. O último vislumbre que o corpo já sem forças permitiu antes da vista turvar-se foram as portas se fechando.

25.8.11

O Homem pomba


Parado na fila do ônibus, o homem olhava ao redor. Seus olhos, um pouco arregalados, perscrutavam o terminal, à procura. Em suas mãos, um saquinho de pipoca que ele comia lentamente. 

Quando achou que ninguém olhava, jogou algumas pipocas no ar, levando a mão à boca em seguida. Tão logo seu gesto findou-se, dezenas de pombas avançaram atrás do parco alimento, brigando entre si, esperando que a grande pipoca caísse da pequena boca do outro animal, para assim ser roubada. 

As pessoas olhavam estranhando a quantidade de pombas, enquanto o homem olhava para longe e comia suas pipocas. Os pequenos animais o circundavam, esperando outro gentil gesto. Umas olhavam para cima, com olhos que pareciam questionadores. Uma levantou voo para encarar o benfeitor pelo tempo que conseguiu sustentar-se no ar. Ele parecia pouco espantado com o acontecido, e fingia indiferença. 

Quando achou que ninguém olhava, repetiu o ato de jogar pipocas pelo ar. As pombas alvoroçaram-se novamente, algumas pegaram a comida ainda no ar, como cachorros. Os outros se incomodavam com os bichos, tentavam espantá-los. Mas o homem continuava a comer, tranquilo, e olhou ao redor, com aqueles olhos estranhamente esbugalhados, como os de uma pomba, que pareciam desafiar alguém a questioná-lo.